Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Sunday, December 04, 2016

Quando chega a hora de virar a página

                   Faz tempo muito tempo que algumas palavras não conseguem se juntar para formar frases que digam algo. E para tudo se tem um tempo limite. Sempre achei o tempo um cretino com rosto, nome e cpf. Mas não é bem assim. É apenas um momento, um rasgo com espaço que somos jogados com nossos sentimentos, lembranças e o que considerar de relevante.
            Demorei um bom tempo para encarar os pertences da minha mãe que faleceu. Eu levei pessoalmente as cinzas dela para serem levadas pelo vento na paisagem da Serra gaúcha. Com uma força única, com toda a minha energia sacudi sobre a cabeça coroada pela luz do sol. Minha irmã se entregava a um choro sem fim. E meu irmão que não pudera estar presente fisicamente, imagina, estava lá, pois em uma madeira (já que era um mirante rústico) jazia talhado em letras garrafais, o seu nome bem lado de onde estávamos, nos juntando como uma força tarefa, proclamados por nós mesmos como Galaxy Trio. 
              Bem nessa época do meu aniversário, que eu sempre defendi que era um momento que não gostava de festejar porque, normalmente, ocorria nada do que tinha planejado. Minha mãe sempre fez questão de festejar de um jeito singelo, que nem fosse com a lembrança de um bolo que ela fazia com gosto ou um almoço preferido. Eu, hoje, vejo como um buraco negro onde sou sugado por esta saudade.
            Há quem diga que sou igual à hiena “hardy” do desenho animado dos anos 60/70. Se você não conhece coloca no seu site de pesquisas e entenderás bem o que digo. Dizem que devo saudar a vida. Eu estou mais para saldar. Com débito. Esse ano não foi lá essas coisas para muita gente como o fatídico acidente do time de futebol Chapecoense. Mas vivo no meu universo particular cantarolado e já citado em tantos momentos por aqui, a Marisa Monte. Só que tudo tem prazo de validade.
            O amor também tem. Pensava que não. E se forçar,um pouco mais na profundidade dele, verei que não como com sua família, com seus filhos. Só que o amor entre parceiros, parceiras (serei politicamente correto, mesmo não sendo) finda. Alguém acaba de lançar todos os impropérios, que sou fadado a ouvir com um sarcasmo que não empunho mais, por não achar isso.
            Chego ao final desse ano cansado. Triste. Mas com uma coisa que ninguém percebe. O velho ditado “antes da tempestade inicia o vendaval. E depois vem a calmaria”, estou nessa vibração. Eu estou nesse limbo sendo atropelado pelos fatos. Em trapos depois de uma batalha onde sai debilitado, entretanto as feridas continuam abertas. E com o instinto à flor da pele pronto para atacar. O vendaval já veio. A tempestade permanece. E em breve a calmaria. Contudo o que restar terá que ter forças para enfrentar o que vem por aí.
            Somei alguns desafetos. Adquiri consciência de limites. E sei que terei êxito seja para construir o que vier. Entenda “construir” como uma nova verve de vida. Muitas vezes terminar ou dizimar o que existia para iniciar o novo. Tenho pessoas diversas ao meu redor que me apóiam. Cada uma de um jeito. Espiritualizadas ou evoluídas, assim como os ateístas convictos. Eu ainda tenho rancor, mas estou crescendo. Assim como uma doença que cresce também existe uma cura para que ela se extingue.
            Enfim não é nada querido para se pensar, mas é o ambiente que me concentro. Se eu precisar vou até o fim e quando chegar lá, não espero tenho certeza que vou conseguir erguer não só a cabeça como os punhos para atingir as novas páginas que serão viradas.

            

Thursday, April 14, 2016

Todo o game over tem o seu play again...



Faz muito tempo que encosto a cabeça no vidro da janela embaçando-o com a minha respiração. Não necessariamente a janela está no mesmo lugar. Ela pode ser de um ônibus em movimento completamente lotado de pessoas que vão de encontro com a física. Pode ser a que confidencia no suspiro de onde trabalhamos. Pode ser a que acalanta no nosso abrigo, ou melhor, no lar casa.

Com o passar desse tempo descobre-se quais seriam os motivos. A saudade do que passou, da esperança que queremos que venha forçadamente rápida, a solidão que teima em permanecer ao seu lado sendo a única companhia, a frustração daquilo que não foi atingido, o enfado da mesmice rotineira e o amor que abrange todos apertando-os, esmagando-os e até separando.  

A vida se tornou um campo de batalha. Quando entramos nessa luta gerando uma guerra, se for o caso, temos metas e objetivos. O sangue quente fervendo. Os olhos em chamas. Estratégias, planejamentos e nos fortalecemos, nos armamos, nos preparamos. Contudo somos desprovidos de antecipar os ataques sorrateiros que nos traem a atenção. Num piscar de olhos e explode a ponte que sustenta sua passagem para outra etapa, para ultrapassar chegando até o fim. Este fim é um recomeço ininterrupto. O rodopio de 360º retornando ao começo.

Para todo o jogo temos o seu início para promovermos todas as expectativas e as demais disfuncionalidades. Ao fecharmos os olhos continuamos a enxergar as coisas de maneira clara. Ali, no primeiro momento do choque da falta de luz e depois o surgimento de imagens que ilustram nos pensamentos. Serão lembranças ou serão projeções, pouco importa. Mas se mantermos a respiração deixando de lado a ansiedade, nos deparamos com a escuridão no segundo momento, que aos poucos vai esmiuçando até recriarmos novas imagens. Sonhos, por assim dizer.    

Nesse tempo todo não tiro a cabeça da janela. Desenho um círculo no vidro embaçado. O apago esfregando o dedo indicador friccionando. Respiro com mais força para voltar a minha tela de layout. 

Já recomposta, refaço o desenho com um coração. Ele fica levemente torto, disforme e decido apagar esfregando o dorso da mão. Agora em seu lugar coloco uma seta que vai em direção à rua. Ou para o lado de fora.  


Ao vibrar o celular vejo uma chamada. Uma mensagem. O coração acelera. Um sorriso desenha não mais o vidro, mas meu rosto. 

Tuesday, February 16, 2016

Cães & Borboletas (Canis lupus familiaris & Rhopalocera)


                Um cachorro de grande porte, de raça de todas as raças, com a cabeça sobre as patas cruzadas. Com o olhar triste, mas atento. Observa atentamente o movimento. Nariz úmido farejando. O farfalhar das asas da borboleta a sua frente o faz ficar intrigado. 
Com seu porte enorme admira aquele pequeno ser colorido, tão frágil, tão ágil. Seu rosto contrai-se, arregala os olhos, os abaixa, não para de seguir os movimentos da borboleta. 
Ele tenta se mexer para se aproximar dela se arrastando no chão. Com a força das patas traseiras e agora com o apoio das da frente. Sua barriga colada no piso arenoso. A borboleta parece querer que ele se aproxime. 
Para de voar permanecendo rente ao solo, bem perto, muito perto e movimenta lentamente as asas sem sair do lugar.
                Ele se aproxima, ensaia um choramingo. A borboleta, agora, o observa. Ele é desajeitado, ruidoso, pesado tem medo que ela voe. Tem medo de machucar, de assustar não sabe como chegar mais perto. A borboleta movimenta cada vez mais devagar as asas. 
De súbito ela pousa no seu focinho.
                Relacionamentos. Quantos cães desajeitados esperam o farfalhar das asas. Quantas borboletas ficam a pouca distância. Homens e mulheres, mulheres e mulheres, homens e homens, enfim pares que se observam com medo com receio imóveis ao acontecimento 
do que parece ser tão simples. Relacionamentos.
                Sensibilidade. A falta deste. O pânico acionado da castração da liberdade do ser. E a falta de entrega ao outro. O que causa tamanho medo?
                Todos têm medo de levar uma mordida. De ser pisoteado pela pata pesada. Que ao se aproximarem de mais possam espantar, assustar ou machucar. A borboleta também hesita. O cão de boa aberta e língua pendendo. Saliva caindo pelo chão. Momentos cruciais. O encontro dos dois. A sutileza com a rudeza.
                E de repente a borboleta voa, o cão tenta segurá-la com a boca dando-lhe dentadas no ar. Ela sobe rápido de forma circular. E fica saltitando o máximo que puder para alcançá-la.

                 Desses desencontros e encontros. Marcantes. Curtos ou longos enquanto durarem, nós realizamos nossas relações. Silêncio, calma, devagar a borboleta está voltando....