Bem-Vindos....

Bem-vindos todos os desavisados e os mais avisados...Que estejam com as mentes e as pedras em prontidão para se lançarem ao pequeno Universo de Idéias que os convido a permanecerem só um pouco...

Friday, October 13, 2017

Quebra-cabeças

O menino senta-se sobre as pernas cruzadas acima do carpete de matiz marrom. Ele junta-se no espaço dos seus brinquedos espalhados. Bonecos de super-heróis, carrinhos de plástico e de ferro à fricção, animais de borracha, serpentes de silicone e de papel, tijolos de montar, quebra-cabeças de figuras de desenhos animados. O menino é o ser supremo que dá vida a cada brinquedo que assumem personalidade, vontades própria, vozes e até conseguem sentir. Tudo devidamente sonorizado pela mesma voz cheia de onomatopéias, gritos, sussurros e explosões de impacto, muito impacto.
Ele tem o universo de atenções dispersadas. Brinca com uma coisa que interage com outra que deixa de lado para terceira opção e assim vai seu livre arbítrio de construir tudo através da desconstrução do todo. A sua teoria do caos. Mas que acaba tendo uma lógica uniforme. Ele observa quem o observa e o traz para dentro do seu mundo puxando para a nova dimensão. Não importa se ao seu redor há outras realidades advindas da televisão ainda companheira ou do tablet que jaz ao chão logo adiante. Não importa se outras vozes são ouvidas. Ele administra aquele mundo que se amplia através dessas realidades.
O observador agora participante torna-se peça desse mundo do menino. O detentor das diretrizes das vidas e escolhas a serem tomadas até suas tentativas infrutíferas que devem ser alteradas de acordo com os obstáculos. O menino pede auxilio com certa veemência até, para que seus propósitos sejam alcançados. Nada absurdo chega a ser estimulante ao observador, agora participante, desse mundo. Os poderes dos super-heróis vão sendo replicados e ambos recriam as ações. O menino solicita ajuda para lutar contra a sucuri gigante e feroz no rio de almofadas. Ele, outrora, se torna um escalador de paredes apoiando pés e mãos nela e o seu companheiro o ergue dando-lhe o tão esperado poder aracnídeo. Outras então, um dragão ou um foguete humano.
O menino conversa, ri, brinca, abraça e até se declara. Faz o seu companheiro encher os olhos de lágrimas que são seguras como se ele pudesse amarrá-las. Coisas ditas como “meu querido”, “te amo do tamanho de uma titanoboa ( cobra pré-histórica que media em torno de 15-18 metros e podia devorar um dinossauro de pequeno porte)”, “você é mais forte que o Hulk( personagem dos quadrinhos de força descomunal )”, ou simplesmente um beijo ou abraço forte.

E chega a hora de descansar. Apagar o sol do lustre e anoitecer o mundo fictício. Amanhã será outro dia e as aventuras reservarão novas descobertas. O menino continuará imaginando e vivendo sua realidade ao lado de tantas outras realidades até crescer aos poucos e deixar os brinquedos guardados em suas caixas, embalagens e sacolas no armário.  O que se sabe apenas que seu quebra-cabeças  está sendo montado por ele a cada dia. E se depender do seu parceiro de aventuras, o ajudará sempre de perto dentro do seu abraço.

Tuesday, May 23, 2017

Sem Sombras e Dúvidas

           
              Ela largou a caneca de café quente sobre umas folhas rasuras. A fumaça dançava sobre a caneca trazendo à tona o aroma. Ela segurou novamente a caneca com as duas mãos e aproximou dos lábios. O dia renascia como tantas outras vezes. Ficou pensando nos acontecimentos. Nas aventuras bem quistas e as malfadadas. Deu de cara na parede, disse em voz baixa acompanhada de um sorriso e um longo gole de café esquentando o peito e acalentando muito mais.
          Perguntas povoavam sua cabeça, nesse universo ímpar que é cheio de buracos negros, galáxias, planetas e satélites naturais. Não indagava quem somos, para onde vamos? Mas sim quem ela era realmente e para onde ia? Olhava para a janela observando as pessoas caminhando, carros cruzando avenida, ônibus em seus terminais depositando ou recebendo mais pessoas. Passou a mão nos cabelos amassados pelo seu recém acordar. Soltou a caneca na beirada da janela e espreguiçou-se com estalido das juntas e o esticar do corpo. Sozinha em casa. De pijama. Afasta marido, como dizia uma tia próxima moribunda, aqueles largos com bolinhas e cheio de desenhos como ursos ou flores. Agradeceu por ter passado a noite sozinha. Ninguém mereceria ser testemunha dessa personagem mais parecida com uma boneca de pano. E se isso acontecesse, não deveria sair daquele quarto vivo! Riu um pouco mais alto.
            Era hora de sacudir a poeira e as cobertas. Dormiu além da conta. Uma nuvem de pó pairou no ar e os raios do sol salientavam-na entrando pela janela com uma arrogância bruta. Disse que deveria tomar vergonha na cara e limpar a casa mais seguidamente. E foi tomar, mas foi tomar outro gole de café e a vergonha já não era uma virtude tão próxima dela assim não.
            Tirou sua fantasia de “tô nem ai” e ficou nua para o seu orgulho diante do espelho estava bem. Os anos tinham passado e sabia que muitas mudanças ocorreram, mas estava bem. A fez permanecer diante do espelho defronte ao seu quarto de corpo inteiro. Fez pose. Contraiu abdômen, torceu a perna, flexionou os braços, levantou os seios pouco cedidos aos caprichos da indomável gravidade, olhou a bunda e observou cada celulite rogando pragas e fazendo truques para que elas sumissem num passe de mágica que resultaram numa infrutífera tentativa de burlar a natureza. Lembrou que hoje ia à academia fazer exercícios específicos para glúteos, fora o coquetel de colágeno e termogênicos que a esperavam na cozinha. Pôs somente a calcinha que não estava esfarrapada e o elástico ainda permitia seu uso.
            Desfilou um pouco pelo corredor até a sala. Deu de frente com a janela aberta ao prédio vizinho, onde um senhor de meia idade a olhava fumando um cigarro tão forte que o cheiro invadiu o seu apartamento. Mas no momento ela só pensou em fazer o que fez. Atirou-se ao chão como um sapo, uma perereca. Não tinha a opção de ficar em pé. Ele estaria ali certo esperando para vê-la num fetiche de “voyer”. Aquele sujeito sempre ficava parado a olhando todos os dias. Ele não falava nada. Só fitava-a com os olhos parados de tubarão.
            O que fazer?! Ela iniciou a jornada de se arrastar pelo piso frio. Sua pele sentia a diferença de temperatura e o atrito causava um ruído agudo. Arrastou-se até o corredor. Demorou um pouco mas conseguiu. Esfolou os joelhos e adquiriu uma vermelhidão nos cotovelos. Fora do alcance de visão daquele homem, ela se ergueu. Voltou para o quarto e enrolou-se num lençol. Passou apressada pela sala. Foi até a cozinha. Pegou um copo de leite desnatado da geladeira e sorveu. Depois foi até a pia pegar os ingredientes de seu coquetel e um copo de suco de acerola tampado por um guardanapo feito na noite anterior. Bebeu tudo. Achou meio ácido fazendo uma careta que a franziu a face toda.
            E em passos de ginasta saltitou até o banheiro que ficava entre o corredor e a sala. Ligou o chuveiro aguardando que a água ficasse bem quente. O banho foi longo. Gostoso. A água fazendo carinho na pele. Saudades da mão que afagava dias desses. E como num choque arregalou os olhos.
            Saiu do chuveiro. Secou-se com rapidez enrolando-se na toalha e correu para o quarto. Mergulhou como uma atleta de salto ornamental na cama. Procurou entre os lençóis e as cobertas que tinham sido arrumadas jogando-as por cima dos travesseiros. Encontrou o celular e olhou mensagens, últimas ligações. Nada. Não havia um resquício de vida dele. Pensou sentada nua com a toalha se soltando, o que tinha acontecido. Passou a mão no queixo e disse algumas palavras de baixo calão. E novamente arregalou os olhos: onde estão meus anticoncepcionais? As coisas estavam ficando bisonhas. Que trem me atropelou?! Disse.
            Levantou com calma. Começou a se vestir. Tinha que trabalhar. Blogueira, tinha que postar o texto do dia. Nem sabia por onde começar. Já estava com a preocupação de uma doença venérea até 9 meses do resto da vida dela. Fora o fora que parece que levou.
            Quando abriu o notebook e a página em branco se apresentou diante dela, o seu celular tocou estridente, o que a fez gritar. Nervos a flor da pele. Pôs a mão no peito e como fosse uma bomba prestes explodir atendeu e viu número desconhecido. Alguém deve ter sequestrado seus dados e estariam extorquindo seus bens. Disse “alô” e depois de uma eternidade de milésimos de segundos, alguém disse: “Oi! Você chegou bem em casa? Suas coisas ficaram comigo. Estou no caminho posso levar para você. Creio que é apenas a nécessaire. Juro que nem abri. Devo?! Ela sorriu e imediatamente disse “nem pensar!” Ele riu do outro lado. Marcaram de se encontrar daqui alguns minutos.
            Enfim ela estava tranquila. Agradeceu mais um dia. Levantou-se diante do notebook e pos um jeans e uma blusa, não antes fazer uns testes de combinações para ficar casualmente arrumada. Ajeitou os cabelos e maquiou-se levemente. Nunca conseguiu ser tão ágil, precisa e rápida. Ela, antes de sair do apartamento para encontrar seu príncipe salvador em seu cavalo branco contemporâneo no avatar de um carro gasto pelo tempo quase gelo, olhou para trás e mais uma vez agradeceu. Agora a mim. Eu apenas acenei com a cabeça fazendo ela sorrir feliz como ela merece ser. 

             

Monday, April 03, 2017

Se salvo se

O vento sopra já mais forte, um tanto a mais de frio chamando para si a presença do outono. Ainda faz sol intenso que queima a pele misturada com a sujeira da cidade. O cabelo sempre desalinhado não consegue segurar o leve penteado. Assim como os pensamentos em turbilhão. Um ciclone de ideias. Uma tempestade de imagens e lembranças. Choques cíclicos do hemisférico dominante do cérebro no lado esquerdo. Um irresponsável pensamento lógico que domina. Perguntas descerram cortinas de dúvidas, enquanto fechamos os olhos com o vento que nos abate de forma nada gentil.
            No relacionamento flutuando como um dente de leão que invade outras áreas, que se dissolve no ar, mas deixando um pouco de si. Já passaste por isso?! Essa sensação de ter deixado algo para trás ou que deixará algum legado logo à frente?! Você observa atentamente como um ofídio as pequenas coisas que se tornam grandes a ponto de derrubar tabus, preceitos, preconceitos e fomentar pós-conceitos?! Que não precisam ser grandes para ser uma ameaça, mas apenas estarem perto o suficiente para atingi-lo?! Tantas perguntas que podem vagar pelos seus relacionamentos não apenas romanceados. Porém também com aqueles de convivência hermenêutica, nada pacíficas de colegas de trabalho ou saudosas de amizade.
            O pensamento e o sentimento num reles jogo de palavras escondidas. Quem não teve a vontade de esbofetear alguém por uma ação, retenção ou missão de alguém próximo. E o próximo idem. Somos invasores de espaços alheios. Nas críticas. Tantas vezes hostis com intenção de corroer com acidez de impressões as mais fortes convicções de boa ventura. Ou obséquio fato de reconhecimento e agrado suavizando com carinho o ego.
            Somos a barbárie da existência, seres humanos. O mais cálido ser pode, encurralado, tornar-se o mais contundente agressor. Usamos redes sociais para demonstrar a nossa existência. Modernidade. Somos anfitriões da ilegitimidade de integração. Filosofia. Afastamos para unir grupos. Segregamos mesmo unindo. E a reação sempre vem. De uma maneira racional da parte dominante do cérebro ou na parte rompante com seus vendavais.
            “Toda regra tem uma exceção...” vale o dito popular. E nós adoramos criar regras exatamente para poder incluir uma frase, um esboço rasurado de opinião suprema. Mesmo suave. Mesmo calmo. Mesmo não intencional.
            E ao parar numa esquina tão parecida com todas as outras que já cruzei percebo que não há diferença. Há distância. O que nos aproxima é um beijo. Um abraço. Um sentimento que achamos tão nobre que o evitamos. Abrindo cada um, do seu jeito, sua caixa. Vasculhando cada centímetro até o fim e encontrando pequenas folhas serrilhadas do dente de leão. Um invasor dentro do seu coração que fará florescer em meio aos ventos, mudanças de estação, de lugar.
            Descobrirá que não é regra. E sim exceção em não amar.